Confissões de um querido reacionário

Seguindo a mesma linha temática confessional de A cabra vadia e O óbvio ululante,  O reacionário   reúne uma coletânea de crônicas do autor considerado o maior dramaturgo brasileiro, publicadas na coluna “Confissões”, do jornal O Globo, e também na coluna “Memórias”, do Correio da Manhã, durante o período de 1969 a 1974. O livro traz ainda o prefácio da primeira edição, escrito por Gilberto Freyre.
  
   
O reacionário – memórias e confissões

Nelson Rodrigues
400 páginas
Agir / R$ 79,90

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Silenciosas explosões interiores
Os quatorze contos escritos pelo ex-piloto de caça americano James Salter, traz uma série de personagens envelhecidos, que no auge da maturidade tem a súbita revelação  de que talvez, o melhor de suas vidas tenha ficado para trás. Traduzido por Samuel Titan Jr., Última noite reúne contos publicados anteriormente pelo autor nos livros Last night (2005) e Dusk (1988), este último vencedor do prêmio PEN / Faulkner.

 

Última noite e outros contos
James Salter
Cia das letras
176    páginas
R$ 39

 

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A Vida de David Gale
(The Life of David Gale, EUA, 2003)
Duração: 103 min
Diretor: Alan Parker
Gênero: Drama

Até onde alguém pode chegar para alcançar seus objetivos? Até que ponto o senso ético induz nossos quereres?
Os questionamentos trazidos pelo filme de Alan Parker crescem com os minutos decorridos e culmina numa interrogação final que engloba a ética numa conjuntura social onde todas as respostas são possíveis, se bem articuladas.
David gale, interpretado por Kevin Spacey, é um professor de filosofia, acusado de estupro e assassinato de sua amiga Constance, que está no corredor da morte, a quatro dias da sua execução e “concede” uma entrevista exclusiva. A estratégia utilizada pelo protagonista consiste em utilizar-se da imprensa, através de um trabalho minucioso de persuasão sentimental com a jornalista Bitsey Bloom, como forma de explicar seus atos. Mas o filme parece querer pautar-se mais na questão ética individual do que num conceito de ética jornalística. A ausência de um questionamento posterior às descobertas, a maneira como o filme é feito e finalizado, deixa explícito o pensamento do autor, no melhor estilo maquiavélico. Quem sabe uma continuidade do filme não o faça, mostrado-nos o que fará a jornalista Bitsey Bloom sabendo que foi usada como meio para um fim?
David Gale é um líder ativista contra a pena de morte e se vê perdendo inúmeras batalhas no decorrer da luta pela causa. David é afastado da universidade onde leciona após ser acusado injustamente de estupro por uma aluna que, assim como ele, gosta de desafiar as autoridades. Devido ao fato, ele é constantemente agredido verbalmente e ignorado por seus alunos que ‘temem’ o professor alcoólatra e estuprador. Para completar o caos, vê seu filho de seis anos ser afastado por sua mulher que o abandona. Arrogante e egoísta, o professor aprofunda-se em seu próprio caos a ponto de não perceber que Constance, sua melhor amiga, confidente e companheira de protestos está à beira da morte, por conta da Leucemia. Mas é a partir da descoberta dessa doença que ambos planejam seu triunfo final. A concepção de que vale a destruição de uma vida se em prol de outras tantas é tão fantástica quanto perigosa. Tudo é muito bem arquitetado pelos dois amigos que contam ainda com a ajuda do “cow-boy”, também ativista, supostamente amante de Constance e do advogado de David.
Bitsey Bloom vai se envolvendo gradativamente com a história narrada por David Gale. No início contesta sua suposta inocência baseando-se nas provas existentes, mas pouco a pouco vai se envolvendo com o cárcere. Tudo é registrado e gravado pela jornalista, exceto alguns fatos, previamente combinados por ambos de serem off. A personagem não traz maiores resquícios de deslumbramento e vaidade, havendo uma mostra considerável desse fator em suas falas e atitudes. Ela se mostra espontânea e cautelosa e justo por conta dessas particularidades vai sendo tão bem usada pelo protagonista.
O que vem a ser má fé? Nos instantes finais, antes de ser executado, Gale traz uma expressão de satisfação e cinismo em sua face, algo imperceptível no início e que desorienta o telespectador, por esse está, assim como a jornalista da trama, tão envolvido com o filme e tão disposto a acreditar na inocência do professor… A maneira como as verdades ficcionais vão sendo reveladas faz deste um filme surpreendente. Mas sua mensagem traz uma carga tão dramática quanto contraditória, quando aborda as relações humanas em seus ápices de bondade e hipocrisia.
O suicídio de constance não inocenta Gale e suas atitudes o condenam como o articulador, o que no filme permanece implícito em seus atos egoístas, em suas frustrações e principalmente no seu último olhar, antes que se desliguem todas as câmeras. Fico aqui na espera d’A Vida de Bitsey Bloom

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O Grito do silêncio embriagou todas as Vozes
Exposição do trabalho sonoro de Walter Smetak no MAM
De 30 de agosto a 30 de setembro

Conceber o homem como “o maior dos instrumentos”.
Walter Smetak, que nasceu suíço e tropicalizou-se baiano, poetizou o seu trabalho musical, redescobrindo sons através de novas formas, através da potencialização de elementos inusitados como a cabaça, o isopor e o arame. Smetak queria a mimetização dos sons. A afirmação: “O fim da fala ainda não é o início do silêncio” é um exemplo de questão colocada pelo artista, que propicia a nossa reflexão sobre o seu modo de ver a plasticidade das sonoridades e suas múltiplas possibilidades. Em 2007 Smetak completaria 50 anos de Bahia e 70 anos de Brasil e a exposição que esteve no MAM até 30 de setembro, tornou possível a apreciação das mais de 100 plásticas sonoras do artista. Mas o Imprevisto de Smetak veio tarde e agora só poderá ser revisitado em abril de 2008, no MAM de São Paulo.
A Voz do Silêncio – Smetak criou e recriou instrumentos a partir de seus estudos – quase que ritualísticos – em busca do elemento mínimo, da sonoridade mínima. A Máquina do Silêncio consegue retratar os seus conceitos de forma excelente. Instrumento manual, mecânico e elétrico, criado em 1971 de madeira, isopor, metal, cabaça, fio e fibras, a máquina busca retratar “o silêncio onde podem ser ouvidos os elétrons em volta do núcleo”. É fantástico. E a fantasticidade disso está justo por ver em Smetak o artista que volta sua obra para o todo universal e não a fecha em si: “É a obra que fica. O Autor é aquele que vai embora”, ele afirmou. E esse é o princípio a qual todos estamos fadados imperceptivelmente: somos o que fazemos com o que somos. É cíclico. É simples. É transcendente. E é fatal. Ao remeter-se ao “som dos elétrons em volta do núcleo”, o artista subtrai-se de todas as formas, afirmando a ininterruptabilidade de todas as coisas, num jogo onde as constantes variações são as molas propulsoras para a criatividade. O silêncio para Smetak, portanto, representado através deste instrumento, é algo tão abstrato quanto à própria vida. O silêncio, portanto, não representa para ele a falta de som, mas o mistério do mesmo.
O “Descompositor” Contemporâneo – Para Smetak, a obra dele não era nem dele, mas sim da Bahia, coisa emanada que ele captou à sua maneira, redecorando em outras facetas. A variação de formas trazidas por Smetak refletem sua visão simbólica dos elementos representados por elas e a importância da concretização das mesmas para o ressoar do sons. Sem a forma – a limitação que ela traz – os sons não ressoam, afirmava Smetak. Por isso a busca dos novos sons através das novas formas, possibilitando assim experiências variadas quase infinitas. As formas emitem energias que são captadas por nós em variações infinitas de conceituações. E ao visualizar as formas incomuns dos instrumentos de Smetak, nos deparamos em um jogo semiótico de comparações, remetendo-nos sempre às formas já reconhecidas por nosso cérebro. E o nosso estranhamento vai-se desfazendo pouco a pouco, através dessa e de outras saídas.
Uma dessas saídas do estranhamento se dá na maneira como está concebida a exposição Smetak Imprevisto: através do jogo de luzes, somos levados ao reconhecimento dos instrumentos e de suas possibilidades sonoras, de forma lúdica, num crescente fascínio da busca pelo próximo instrumento a ser descoberto. Outra idéia fantástica está no Homem-Árvore, peça criada em 78 que retrata tão fielmente a nossa crise contemporânea, onde vivemos presos entre um tempo que ainda não morreu por completo e outro que ainda não nasceu por completo; um homem preso às suas raízes e que volta seu olhar para cima, para a resposta que não há.
A obra de Smetak nos propicia possibilidades estéticas fantasticamente ilimitadas… E é interessante que não seja reconhecida pelas partes, mas sim pelo todo, como num jogo quântico. É um gozo presenciar sua obra; embriaguemos-nos com sua criatividade!

(E que os nossos fluidos se confundam em outros corpos)

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