Ensaio do agora
Maio 29, 2009
I
Já a havia observado outras vezes no mesmo ônibus. Ela o ignorava. Nunca o olhara nos olhos, exceto um dia, por acaso, na subida do ônibus, após sua bolsa prender na roleta e gentilmente a retirá-la. Um sorriso, apenas, seguido de um “Valeu aí” e nada mais.
Ela sempre estava com um livro à tiracolo e descia sempre no mesmo ponto. Nunca antes tinha sentado ao seu lado. Jamais a observara tão de perto. Seus cabelos ondulados balançavam ao vento e o tocavam de leve. E era uma vontade quase incontrolável de acariciá-los, de acariciá-la toda, de tomá-la em seus braços, de dizer que a desejava desde o dia em que a viu chorar no ônibus. Era um desejo latente de dominá-la, ela que parecia tão indomável com aquelas lágrimas involuntárias a lhe escorrer ligeiras; e ela não contraía um só músculo da face, apenas enxugava as gotículas de dor com a ponta dos dedos, deixando-os úmidos, soltos no ar. E ele estava lá, do outro lado, a observar toda aquela ritualidade, todo aquele desencaminhar de versos raros, todos entretidos numa só mulher, com aqueles cabelos cacheados, aquela boca carnuda, aqueles olhos perdidos, aqueles dedos longos a trocar páginas e páginas de uma literatura desconhecida dele, ela toda desconhecida dele, indiferente a ele, lhe causando espasmos e suspiros incontroláveis pelo resto do dia, nas poucas vezes que a fitava de manhã.
Mas agora ele estava ao seu lado, pela primeira vez. E não podia deixar que lhe escapasse aquele instante. E enquanto ela derramava o olhar por entre as páginas do livro aberto, ele tecia movimentos, como num jogo de xadrez, criando estratégias variadas, prevendo o desfecho de cada gesto, de cada possibilidade gestual pra aquele instante. E imerso nesses pensamentos deixou que lhe escapasse uma frase incerta: “eu sei seu nome, Isa Lorena…” E ela o olhou encabulada e perguntou: “Como assim sabe meu nome?”. E ele a fitou, desprevenido, com os olhos esbugalhados, incrédulo do que acabara de fazer.
Riu-se. E foi o melhor de seus atos, dentre todas as possibilidades. Muitas vezes, ou quase sempre, o improviso vale tanto mais quanto o planejado. E ela era dessas mulheres leminskianas, que vencem distraídas tanto mais quanto ensaiadas. E gostava do espontâneo. Ela já não o conhecia também? Ficou na dúvida. Então ela repetiu a pergunta, já num tom menos conciso e ele a olhou fundo nos olhos e disse adivinhar-lhe o nome. E ela sorriu encabulada: “Mas ora veja, um engraçadinho…”, e voltou-se ao livro, como que a fazer charme. E ele disse: “Mas é verdade, olhe pra mim”. E ela, mais pelo desafio que por vontade, encarou-o nos olhos.
Ele não esperava aquele olhar. Ela fechou o livro e inclinando um pouco o corpo disse-lhe perto do ouvido: “Não gosto de mistérios”. E ele, quase sem querer, sorriu-se dela e, como num impulso a atacou: “Que mentira tola”. Ela se contraiu de imediato e meio boba perguntou: “Quem é você afinal?”.
II
- Pois é. Eu vi você chorar naquele dia. E achei lindo o seu chorar. Aquela dor que parecia tão perdida em você, que parecia nem caber ali. E parecia mais. Parecia que você também sabia que ela não cabia.
- Eu tava de TPM.
-Sério?
-Pois é.
-E tava chorando por nada?
- Não por nada… Mas quando a gente ta assim, os poros ficam mais abertos, saca? Aí tudo toma uma dimensão maior.
Os dois estavam sentados na praia. Ele não perdeu aquele instante. Olhavam o mar, procurando palavras, procurando explicações que não surgiam. Ela riu.
- Que foi?
- Não, nada. É que… Cara, que loucura. Você bem pode ser um psicopata, e eu aqui te dando trela em plena quinta-feira de manhã…
- Psicopata, eu? Mais ou menos…
- Ah ta… Então vou indo, ok? – E levantou-se.
-Ei, espera, deixa de ser boba.
Não era pra ela cair. Mas tinha levantado de mau jeito, sem descruzar direito as pernas e ele a puxou pelo braço, fazendo com que se desequilibrasse. Caiu meio de lado, quase que por cima dele; e pôs-se a rir quase que no mesmo instante, balançando a cabeça em negativa, como se desacreditasse de tudo aquilo. A ele restou apenas o silêncio, enquanto observava seu riso e enquanto limpava seu rosto e cabelos de areia, respondeu ao impulso e lhe roubou um beijo rápido, furtivo, breve. E no descolar da boca ela permaneceu inerte. E seus olhos semiabertos sussurraram o apreço pela surpresa, pedindo um pouco mais daquele agora. Então o beijo completou-se e ele sentiu sua entrega, sua língua, seus cabelos, seus dedos a percorrer a nuca, sua respiração intensa e o barulho do mar…
Carta do dia
Maio 29, 2009
A importância de agregar valores elevados
O arcano V do Tarot, chamado “O Papa”, emerge como arcano de conselho neste momento de sua vida, sugerindo a importância de cultivar valores espirituais. A questão é: será que você aplica na prática as coisas que em teoria conhece? É chegado o momento de exercitar toda a sua sabedoria de vida, Isa. Vamos ver o que você aprendeu nestes últimos anos! A vida lhe testará, averiguando se o que você defende são apenas teorias bonitas ou se há uma base interior mais profunda nas coisas que você prega. Você perceberá que algumas coisas são mais fáceis de pregar do que de fazer, mesmo assim elas valem o esforço.
Conselho: Cultive bons valores espirituais neste momento.
Ser, não ser, deixar de ser… Arf!
Maio 28, 2009
Estou a questionar seriamente se esse blog tem, de fato, alguma serventia.
Por enquanto a resposta é não. Um não bem íntegro, solene até.
Se ele permanecer daqui a três dias, na segunda coloco aqui um ponto final.
Afinal, aprendi a não resolver nada de cabeça quente. Essas coisas que a idade nos traz… E como sou muito, muito e absolutamente impulsiva, tenho de praticar isso exaustivamente. Aquela historinha do Chico Buarque de “aja duas vezes antes de pensar” já não cola mais em mim. Desgrudei-me disso. Ou melhor, sem essa arrogância que nem pega bem: estou, em verdade, a fazê-lo.
Depois da manhã turbulenta de hoje, às 14h30 eu só queria fechar os olhos e dormir. Nem precisava me apoiar em nada. Do jeito que meus olhos estão cá a reivindicar descanso, até assim sentadinha eu dormia, de boa mesmo… Mas “é preciso estar atento e forte…”.
As visitas aqui no Poéticas continuam crescentes, mas hoje eu cheguei e olhei pra ele e não entendi o seu sentido. Encontrar o sentido das coisas tem sido um papo constantes, inclusive. Tem uma grande amiga envolta nesse dilema do ser ou não ser e porque ser, afinal… Coisa de doido. E como eu sou bem existencialista, sigo acreditando que mais importante que saber porque se é, é ser. Complicou? Descomplico: Imprescindível questionar porque se é, o existir. Mas, mais importante ainda do que esse questionar é o ato de ser. E só se é, sendo.
Porra, agora eu exerci o melhor do contraditório, né?
putz…
Mas sim, voltando:
Exercício constante de construção e reconstrução. Ininterrupta interferência de dados, constante compilação de referências e extraordinária atividade criativa. Somos, nós humanos, seres fantásticos capazes de inventar e reinventar o mundo que ocupamos. E, como o Renato cantava “quase sem querer”, “temos nosso próprio tempo”. E ele é só nosso, individual e intransferível.
Ter ciência disso evita um montão de turbulências diárias com o outro, saca? Porque cê vai percebendo que o tempo do outro e o seu são díspares e que isso, por mais que complique, é fodástico.
É que nem olhar pro céu e ver um bando de fósseis estrelares que a gente não faz nem idéia se existe mais. Essas distâncias são tão irreais… Anos-luz… Olhamos para um céu do passado. E se algum marcianinho estiver agora apontando seu telescópio pra cá ele vai nos ver há… quatro, cinco anos atrás. Agora pense no horóscopo do dia. Pensou? Baseado nas estrelas, planetas, etc? Pois sim. Tudo passado.
Tá, depois a gente esmiúça isso ok?
Agora tenho de voltar a trabalhar fora da tela. Fui.
“A verdade do universo é a prestação que vai vencer”
Maio 27, 2009
Faz dias que tento escrever aqui e não consigo. Não, não sei o que há. Não é falta de vontade, na verdade, há muito a ser dito. É que sempre há de se ponderar o que é e o que não é publicável em nossas vidas. E mesmo sendo este o blog destinado aos vômitos cotidianos, ainda assim, é preciso certa cautela.
Fora isso preciso cuidar de vocês também, leitores. E como sou deveras dramática, muitas vezes venho cá a solfejar minhas angústias e muitos são os que depois vêm preocupados questionar o que é que há. Certíssimos. Adoro a ocupação de mim da parte d’ocês, mas considerem sempre meus dramas. As vezes são dramas e só. Outras soa dores mesmo, enfim. De certo, só posso afirmar que há em mim, sempre, algo Pessoano, algo que deve ser lembrado, nessas lembranças vagas do meu Eu: sou poeta fingidor que finge tão completamente que chega a fingir que é dor a dor que deveras sente.
É fato não esqueçam.
De mais a mais, continuo sem dinheiro. Joguem aí a carga dramática que quiserem. Continuo procurando um outro trampo mais digno também. já disse, não detesto isso aqui. Entôo antes, dia após dia, com a finalidade mestra de n esquecer: Amo trabalhar no Pelourinho Cultural. Engraçado é que isso já se tornou mantra coletivo entre a galera aqui e sempre que estamos na merda literalmente, entoamos nosso versinho.
Vontade imensa de fugir desse lugar, baby.
…
Tem duas semanas que escrevo sobre os meus projetos. Faz duas semanas que olho vários editais e penso porque diabos não estou me dedicando a isso. Faz duas semanas que digo que vou ao dentista, tem duas semanas que prometo que vou buscar o resultado de meu exame, faz duas semanas que muitas coisas não andam. Que eu não ando. E que o mundo, filhodaputa, não pára de girar. E nem venham me dizer que esse pára não tem acento, que ainda não me acostumei com as novas regras. À merda tudo, modernos são vcs.
Chateação, melancolia, bolso vazio, injustiça, tédio, incoerência.
Arf.
Por isso eu “to trancado aqui no quarto de pijama porque tem visita estranha na sala. Daí eu pego e passo a vista nos jornais”:
• Dilma acha que não vai morrer de câncer;
• Lula acha que vai deixar um país melhor pra todos nós;
• Em Brasília, babás e amantes são moda e ponto final;
• Na Bahia, o governo afunda sem repasses federais.
• Em Salvador, se chover mais um pouquinho, a gente nem vai mais precisar do Elevador Lacerda.
“Mas, no entanto, não há galinha em meu quintal”.
É tudo novo de novo…
Maio 22, 2009
Então que eu consegui fechar um ciclo importante ontem. Agora chega de lágrimas perdidas que de água caindo à toa, basta o mijo ininterrupto de São Pedro!
Agora, que venha o novo. As novas paixões, os novos processos, as novas descobertas, os novos olhares, os novos quereres.
A tristeza foi embora. Ficou o ceticismo mais nítido para o amor. Mas não, não deixei de acreditar que é possível. Só que não deixa de ser uma nova feridinha que terá seu tempo pra cicatrizar. Mas sem dramas, sem mágoas, só o desejo que todos fiquem bem e felizes, porque essa é a busca. O coração não dói nem palpita sem nexo. Apenas hiberna. Deixe ele com seu tempo agora…
Hoje é sexta-feira e certamente o fim de semana vai ser terrivelmente claustrofóbico, porque o serviço de metereologia já não funciona há tempos e sair do Flamengo assim é daquelas aventuras homéricas que nem sempre se está afim. Eu não to. Em definitivo. Mas hoje bem cabia uma cervejinha no fim do dia, depois do trabalho, depois de saber-se escrava de um governo falido… ops! Tiro no pé? Não… Realidade.
Trabalhar sem ganhar justamente por isso já é fodido. Trabalhar e não ganhar um mês inteiro é o que?
Aberto para respostas… rs
O fato é que gosto do que faço. Queria, claro, como já revelei aqui – e pro mundo inteiro – viver de escrever e ponto. Mas ainda não dá… Por isso fico aqui conversando com vcs através do blog, ué…
Hoje peguei Leite Derramado do Chico pra começar a ler… E vou ter de emendar com O Mundo De Sofia que não acaba nunca! Rs
Saudade de abraçar Luis… E é daquelas saudades horríveis, porque não dá pra matá-la com brevidade. As vezes dá vontade de entrar de gaiata num navio e parar lá em Barcelona só pra isso… Mas tenho os meus pra abraçar aqui, aí eles recebem sempre abraço duplo. Aliás, taí uma coisa que gosto de fazer: abraçar. E abraçar meus amigos, mais especificamente. Ê coisa gostosa né? Total.
Fora o som da chuva molhando as folhas verde do meu quintal, eu queria uma rede no agora, onde eu pudesse descansar todos os meus anseios…. e um abraço completado de um beijo, pra aquecer o todo.
Fica a vontade.
…
Quem joga uma cordinha pra eu sair desse poço??
Maio 21, 2009
Hit do Pé na Bunda.
“
Ficou difícil
Tudo aquilo, nada disso
Sobrou meu velho vício de sonhar
Pular de precipício em precipício
Ossos do ofício
Pagar pra ver o invisível
E depois enxergar
I
Que é uma pena
Mas você não vale a pena
Não vale uma fisgada dessa dor
Não cabe como rima de um poema
De tão pequeno
Mas vai e vem e envenena
E me condena ao rancor
De repente, cai o nível
E eu me sinto uma imbecil
Repetindo, repetindo, repetindo
Como num disco riscado
O velho texto batido
Dos amantes mal-amados
Dos amores mal-vividos
E o terror de ser deixada
Cutucando, relembrando, reabrindo
A mesma velha ferida
E é pra não ter recaída
Que não me deixo esquecer
“
Os hits do momento
Maio 20, 2009
“Aquele beijo, aquele medo.. mas vc sabe que tudo ficou antigo”.
“Maio já está no final. O que somos nós, afinal, se já não nos vemos mais?”.
“Não vou pedir a porta aberta, é como olhar pra trás… Não vou mentir, nem tudo o que falei eu sou capaz… Não vou roubar teu tempo, eu já roubei demais”.
E pra fechar com chave de ouro:
“Aí foi que eu sambei, cumpadi”… rs
“Caminhar sobre as águas desse momento”
Maio 19, 2009
Cês conhecem essa música do Lenine? A Ponte?
Fantástica né?
Um dia, um adeus…
Maio 18, 2009
Chuva, trânsito, frio, melancolia e lágrimas: “A tristeza é senhora desde que o samba é samba”…
A Festa Africana foi um sucesso. Gente pra caralho, o bar lotado, o som ‘bombando’ e todo mundo com cara de feliz, dançando kuduro, semba, zouk, reggae e uma infinidade de outras sonoridades, comandadas pelos Djs Sartô, Sankofa e Lúcio, além da grande atração da noite, o músico Lazzo. Foi Chuchu beleza!
Meu sábado começou cedo e terminou no domingo. O domingo começou ao meio dia e terminou na segunda, à uma da matina. A Segunda começou às seis. Com chuva e com um frio diferente. Não aquele que arrepia os pelos, mas um mais intrínseco, de arrepiar a alma.
“Hoje eu acordei com medo, mas não chorei, nem reclamei abrigo”…
Pois é.
Não quero destrinchar minha tristeza. Não seria nada fácil. Caberia num livro, não num post. Mas como vale o desabafo, a palavra que me caracteriza hoje é lixo. É assim que tô me sentindo. Um lixo. Um copinho descartável nas mãos de alguém que nunca ouviu falar em reciclagem. Sentir-se assim dá frio mesmo. Na espinha, no dorso. Frio de romper a estrutura que nos mantêm de pé.
Mas vocês sabem… Eu vou conseguir levantar logo.
Só espero que não demore muito…
É que realmente não é fácil perceber que não se tem muita importância pra alguém que é muito importante pra você… Então, quando isso fica bem claro, não adianta ficar disfarçando e acreditando no pouco que ainda brota. Você vê as folhinhas secando e caindo, mas ainda quer acreditar na árvore; mas ela está morrendo, não por querer, mas pelo simples fato de ter chegado o momento. E você sabe que não vai ter mais aquela sombra, aquele verde… Dói.
Mas… “Mistérios sempre há de pintar por aí”.
Que venham os novos, então.
Ato insone
Maio 10, 2009
1.
O verbo não se liberta.
A palavra muda.
Um silêncio percorre as vísceras, mas não sangra.
Uma dor latente, subliminar me toma inteira;
São meus gritos sufocados, eu sei…
2.
Treme a mão
desliza
arde
masturba
O corpo
goza
…
Grita a boca
e os dedos, náufragos,
amam
3.
Tecer fumaças
Enxergar sentidos
Até que ao fim…
Corrompê-los
Dominá-los
Exauri-los.
4.
Quero a ternura
Trêmula
Muda
5.
Um pingo escapa
e o mar não é mais chão
com vestígios de azul.
6.
Notar no céu o azul mutável
A transparência das nuvens em brancas orgias.
Devagar esperar;
Deixar que o tempo se revele composição.
7.
O que vem primeiro,
o poeta ou a poesia?
8.
Da casca saem em silêncio dois pontos
Pra tornar reticência o que era final.
9.
Foto
Grafia
Sonoplastia não impressa
Antes e depois transformados em nada
ou imaginação
.
Enfim:
Exerçamos o dom do explícito,
ainda que todas as flechas
nos apontem pontas tortas e tontas…
.